sábado, 4 de junho de 2011

Comentário geral sobre os Hinos Novos

Dentro desses últimos hinos dele, os Hinos Novos, que começa no hino “Dou Viva a Deus Nas Alturas” e termina no hino “Pisei na Terra Fria”, é ele palestrando, é uma palestra dele. É ele fazendo uma explanação como se fosse uma preleção de final de trabalho.

Um irmão uma vez falou assim:
“Padrinho, porque o senhor quando termina um trabalho, o senhor não faz umas palestras, assim como o crente faz, o pastor faz?”.
Ele disse assim:
“Nós aqui não trabalhamos com a Bíblia, nós aqui trabalhamos com a consciência. Eu acredito na Bíblia, mas não trabalho com a Bíblia na mão; a minha Bíblia é o Daime e os hinos”.
Ele ainda falou:
“Esses Hinos Novos são o meu recado que eu tô deixando aí. Isso aí, é a minha palestra.”

Você veja que os Hinos Novos são um resumo dos ensinamentos do Mestre.


Pedro Domingos da Silva (Do livro "Contos da Lua Branca", de Florestan Neto)

O Prensor (O Cruzeiro)

Ele recebeu este hino numa concentração lá na Vila Ivonete, mais ou menos pelo começo da década de 40. Aí, quando ele recebeu esse hino, tava no forte da concentração. Ele se levantou, colocou um irmão na presidência do trabalho e se retirou, chamou a esposa dele, a dona Raimunda, e pediu que ela me chamasse. Aí, ele cantou o hino todinho (...). Quando terminou a concentração ele cantou pra todo mundo ouvir, pra todo mundo aprender logo. Olhe, nessa época, foi na época de um conflito armado entre Bolívia e o Paraguai*. Mas tava nesse tempo um clamor, só se sabia das notícias. Do outro dia em diante que saiu esse hino, acalmou tudo, zerou tudo. Ele contou que no trabalho dele, ele foi espiritualmente lá, no meio da batalha. Diz ele, que era bala que chuvia assim, pra lá e pra cá, batia nele e caía. Ele tava lá espiritualmente, quando chegou o hino para controlar. A força dominar a rebeldia, que era demais (...). O que é certo meu filho, é que esta, é uma das representações que nós temos que mostrar, e vários hinos que tem aí, cada um trás uma referência.
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*A guerra entre Bolívia e Paraguai que ocorreu nesse período histórico descrito foi a guerra de fronteiras denominada Guerra del Chaco (1933-1935). No período descrito por dona Percília (anos 1940) eclode também a 2ª Guerra Mundial, que muita comoção provocou no mundo espiritual. 

Depoimento de Percília Matos da Silva, do livro Contos da lua Branca – Florestan Neto

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Hoje em dia pode ser difícil diferenciar os hinos "recebidos do Astral" dos hinos ditos "inventados", considerando-se talvez esses cânticos rituais mais como ferramentas humanas e menos como instruções divinas.

Eu pessoalmente tive oportunidade de "passar a limpo" meu próprio caderno de hinário com a Madrinha Percília, e além de algumas palavras que ela modificou, recebi a explicação de que os hinos de um hinário devem guardar entre si uma relação progressiva de aprendizagem pessoal, uma ordem ascendente, e portanto hinos que repassam abordagens anteriores da própria pessoa (entendimento este muito subliminar, talvez) devem ser descartados, ou esquecidos, não-cultivados. E ela mencionou que o próprio João Pereira, cujo hinário é um dos principais do Mestre, teve trinta hinos suprimidos por este quando passados a limpo.

O hinário da Madrinha Percília se resume a quinze hinos, o que nos faz lembrar que o da Madrinha Rita são apenas vinte e cinco, o da Madrinha Peregrina são onze, e nem por isso são hinários desimportantes ou pouco fundamentais. Em termos de conteúdo, quanto aos hinários, às vezes "menos" hinos falam "mais", ou proporcionam melhor resultado prático, do que ser responsável por um conjunto de muitos hinos. Essa economia da expressão, entretanto, parece ser pouco observada na atualidade, quando sabemos há indivíduos que possuem várias centenas de hinos (às vezes até subdivididos em vários cadernos). No tempo do Mestre, e isso não quer dizer que em um "tempo atrasado" ou uma "época de vacas magras", receber um hino era não apenas uma responsabilidade espiritual mas também uma prova, e os que se diziam donos de hinos eram provados no Daime, sendo chamados pelo Mestre para puxarem e bailarem seus respectivos hinários "na força" dessa comunhão, sem cadernos de apoio, tirando apenas do âmago de sua alma a memória, a harmonia e o ritmo dos hinos, o que não dava margem à permanência de hinos "inventados" na irmandade. Quanto alguém passava pelo "vexame" de não conseguir apresentar devidamente a letra de um hino que declarara haver recebido, essa "linha da verdade" mostrava o quanto o desprendimento e a humildade são requisitos naturais do aprendizado espiritual, e atitudes de avidez, orgulho ou auto-promoção através dos hinos são pouco recomendáveis por induzirem (e em muitos casos conduzirem) ao erro ou à falsificação ideológica. O Daime é um misterioso professor que muitas vezes "dá corda para ferrar no anzol", por isso a grande preocupação dos antigos seguidores do Mestre em observar as recomendações que este deixou de viva voz. A própria Dona Percília se auto-questionava quanto aos seus hinos, como demonstra esse trecho de entrevista de Clodomir Monteiro com ela, a respeito do hino que a apresenta como Taio Ciris Midam:

Clodomir - Este hino a senhora recebeu dentro da miração?
Percília - Dentro da miração...eu estava com uma febre neste dia!...
Clodomir - E foi uma entidade que dizia para a senhora isto?
Percília - Eu ouvi, não vi, eu ouvi a música....e quando eu dei de mim eu já estava cantando.
Clodomir - Que a sra. era realmente esta entidade...
Percília - É...Taio Ciris Midam...
Clodomir - E todos no Alto Santo reconhecem que a senhora é realmente Ciris Midam...
Pedro - Pois o próprio Mestre registrou... passou a limpo o hino... seu Eu superior...
Percília - Sim, o meu Eu superior...então quer dizer que eu sou da mesma família...de Midam...né ?
Clodomir - Tá ligado a outra metade dele...
Percília - É...é isso aí.
Clodomir - É isso aí, um é Jura, outra é Midam, o masculino e o feminino...
Percília -Foi passado a limpo com o Mestre...


Eduardo Bayer (do website www.hinarios.blogspot.com)

Percília Matos fala sobre "O Cruzeiro"

 SANTO DAIME: UM SACRAMENTO VIVO, UMA RELIGIÃO EM FORMAÇÃO – Tese de Doutorado - Isabela Oliveira.


Os outros hinos (...) recebidos pelos adeptos são percebidos como mensagens que se relacionam com esse núcleo doutrinário original e são também legitimados por meio das instruções presentes no hinário “O Cruzeiro”. Ilustrando esse tema, temos a história de vida do Sr. Wilson Carneiro, uma das pessoas que recebeu do Mestre Irineu a missão de distribuir o Daime para os doentes na própria casa, que se tornou, na compreensão dos seguidores desse tipo de atividade, um Pronto-socorro espiritual. Por meio de diversas curas alcançadas pelos doentes nos atendimentos prestados pelo Sr. Wilson, ele ficou bastante conhecido como grande curador. Segundo ele, no início desses trabalhos, ele não cantava hinos, apenas oferecia o Daime ao doente. No entanto, com o passar do tempo, passou a cantar os hinos da Irmã Maria Marques Vieira, conhecida como Maria Damião, contemporânea do Sr. Irineu. Quando ficou sabendo do ocorrido, a Sra. Percília Matos ofereceu a seguinte explicação, que contribui para a compreensão da importância simbólica dos hinos de “O Cruzeiro” no contexto da religião. Disse a Sra. Percília para o Sr. Wilson: [103]

“Olhe, o Senhor pegou pela ponta da rama (referindo-se ao fato de ele estar cantando os hinos da Sra. Maria Marques) A gente tem que começar pela haste, porque a haste é “O Cruzeiro”, depois vem a primeira rama que é o Germano, a segunda rama. Primeiro é a haste, depois Germano, depois Antônio Gomes, depois João Pereira. O quinto, é a Maria Marques que tá lá na ponta da rama, que foi onde o senhor pegou. O senhor se pegou na ponta da rama.”

Por meio desse relato fica clara a importância do conhecimento presente no hinário do Sr. Irineu para os seguidores da religião. Ele é o tronco. Os outros hinários são os galhos, ou até mesmo as folhas árvore, quando pensamos nos hinários mais recentes.

[103] Na época dessa pesquisa o Sr. Wilson já havia falecido. A narrativa aqui apresentada foi coletada pela antropóloga Geovânia Barros da Cunha em 1993 e me foi gentilmente cedida por ela, de seu arquivo pessoal, para constar nessa tese.


O Cruzeiro Universal

Segundo a Sra. Percília Matos da Silva, zeladora do hinário do Sr. Irineu, o título deixado por ele para o seu hinário foi “O Cruzeiro”. No entanto, com o passar do tempo, mediante o diálogo, especialmente, com os próprios hinos do fundador, formou-se a compreensão de que esse hinário também poderia ser chamado de “Cruzeiro Universal”, expressão presente, por exemplo, no próprio hinário do Sr. Irineu, no hino 97, intitulado “Centenário”, que diz: “(...) Completei um centenário, no Cruzeiro universal...”. Também, observei em minha vivência na religião, o hinário o “O Cruzeiro” ser chamado de “Santo Cruzeiro”, expressão que remete à compreensão compartilhada entre os seguidores de que os hinos deixados pelo fundador são santos, o que mais uma vez, exemplifica o amplo processo de ressignificação presente na constituição de diferentes significados do Santo Daime.

SANTO DAIME: UM SACRAMENTO VIVO, UMA RELIGIÃO EM FORMAÇÃO – Tese de Doutorado - Isabela Oliveira.

O Cruzeiro

De fato, o hinário O Cruzeiro Universal [1] é composto por 129 hinos [2]. Daimistas antigos afirmam que existem três outros hinos apenas musicados, isto é, a letra existe, mas é conhecida de poucos. Outra versão é que a letra nunca existiu, e nesse caso, Mestre Irineu teria recebido apenas a música dos hinos.

Jaime Wanner


[1]O hinário de Irineu Serra possui pequenas divergências referentes ao seu nome, variando de centro ou região, sem um título "oficial". Na verdade, muitos dos antigos seguidores tiveram seus hinários nomeados, pela irmandade, apenas após fazerem a passagem. [2] o depoimento de Luiz Mendes do Nascimento ele nos conta do hino 52 do hinário O Cruzeiro, do Mestre Irineu: "Completei o meu Cruzeiro com cento e trinta e duas flores. Aí, muitos entendem que ele já estava predizendo a quantidade de hinos que fariam parte do Cruzeiro. Não! Ele não previu isto. Isso foi na sucessão dos hinos que se chegou a 132. Quando ele recebeu este hino, ele cantou assim: Completei o meu Cruzeiro / Com cinqüenta e duas flores / Se tiver alguma de mais / Vós acrescente o meu amor. Quando ele recebeu o próximo, Virgem Mãe Divina, Ele cantou: Completei o meu Cruzeiro / Com cinqüenta e três flores / Se tiver alguma de mais / Vós acrescente o meu amor. E assim sucessivamente, até chegar a cento e trinta e duas flores".

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No livro "O Mensageiro" do Luiz Carlos de Carvalho Teixeira de Freitas, ele fala sobre esses hinos que não estão no hinário do Mestre. Segundo suas pesquisas, não eram hinos normais, mas sim chamados que ele não ensinava a todos, porque iriam sair por ai cantando e assobiando os chamados sem motivo algum. Ele ensinava apenas para a Dona Percília e sua para sua penúltima mulher, para elas usarem na hora em que o trabalho estivesse pesado mesmo.

Marcus Mantovanelli

A Zeladora dos Hinos

Há trabalhos de pesquisa muito bons, sobre a doutrina. Creio que foi de um vídeo, ouvindo d. Percília, que era a zeladora do hinário do Meste, que soube pela primeira vez que ela era a responsável pelas anotações dos hinos. O mestre foi, durante muito tempo, analfabeto, e mesmo que tenha vindo a ler bastante, até mesmo acompanhando os estudos do "Círculo para a Comunhão do Pensamento", escrevia pouco, e não muito bem. O único escrito que vi dele, até hoje, foi sua assinatura.

Lógico que isso não invalida nem valida nada... é apenas um detalhe. Mas foi d. Percília, que nos deixou há pouco, e de quem há registros de áudio e vídeo, que escreveu o caderno do mestre. Mesmo ela nunca explicou sobre os hinos que faltam, por exemplo...

Ela contava que o mestre recebia os hinos, depois chamava ela e cantava. Ela tinha que escrever logo e lembrar tudo, porque até o Mestre esquecia trechos dos hinos e não raras vezes perguntava à ela: -como é que era mesmo?

Para nossa sorte, e provavelmente por obra do Divino, ela tinha excelente memória. D. Percília não nomeou nenhum zelador para os hinários que tinha sob sua guarda, mas creio que este caderno ainda exista, e que possivelmente esteja mesmo no museu... só não sei se tem nome...


Jaime Wanner

Puxante [termo ainda hoje usado no Alto Santo]

Contando com grande número de analfabetos e semi-analfabetos - incluindo-se aí o próprio Mestre Irineu - Percília Matos da Silva, criada por ele desde a infância, recebeu a função de anotar todos os hinos recebidos pelos neófitos em pequenos cadernos, em uma atividade conhecida como “zelar pelos hinos”. De acordo com seus próprios relatos, Percília teria grande facilidade na memorização dos cânticos e por isso era sempre chamada por Raimundo Irineu Serra e outros adeptos para acompanhá-los até algum lugar silencioso e vazio a fim de presenciar o nascimento espiritual dos hinos, isso nos casos do receptor ser previamente avisado por entidades sobrenaturais acerca do recebimento do novo cântico que estava por vir. Esse tipo de assessoria culminou com o recebimento da patente espiritual, “Taió Ciris Midam”, doada para Percília pelo Mestre em obediência à Rainha da Floresta.

Por esse mesmo motivo Percília também recebeu a tarefa de entoar os hinos na forma original como vinham sendo recebidos do astral, cantando a primeira estrofe dos mesmos antes da entrada de todas as vozes durante os rituais. Embora fosse e ainda seja uma satisfação e até mesmo uma obrigação de todos os participantes a prática do canto coletivo em uníssono, algumas mulheres começaram a se responsabilizar para que o canto saísse afinado e condizente com a forma original apresentada pelo receptor dos hinos. A quem ocupava esta função chamou-se “puxante”.


A natureza dos hinos na religião do Santo Daime - Lucas Kastrup Fonseca Rehen 

Lua Branca

Bem no início do seu trabalho com a ayahuasca a Rainha apareceu ao Mestre Irineu. Ele, nessa época, só sabia uns chamados, assoviado e solfejado. Ela disse:

- Olha, vou te dar uns hinos, tu vai deixar esse negócio de assoviar e solfejar pra aprender a cantar.
- Ah! Faça isso não minha senhora, que eu não canto nada.
- Mas eu te ensino!, afirmou ela. Quando foi um dia ele estava olhando para a lua e ela disse para ele:
- Agora você vai cantar.
- Mas como eu vou cantar? É muito difícil...
- Você vai aprender, eu te ensino, abra a boca.
- Mas como?...
- Abra a boca, não estou mandando?


Ele abriu a boca e disparou cantando Lua Branca, o primeiro hino, recebido na selva do Peru. Aí ele começou a receber. Com os três primeiros hinos já dava para cantar a noite inteira, repetindo os hinos. (...) Então ele pediu à rainha que também concedesse aos seus companheiros esse espaço de receber hinos. Aí foi quando o Germano recebeu seu primeiro, o Antônio Gomes o seu primeiro. Aí já foi mudando, Germano tinha três, Antônio Gomes três, Maria Damião três, vamos supor assim, João Pereira três, o Mestre três ou quatro. Aí já dava um conjunto bem maior de hinos, já se cantava a noite inteira.


Luiz Mendes do Nascimento